Galinha cega O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, aí… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava. Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra. GUIMARAENS, J. A. Contos e novelas. Rio de Janeiro: Imago, 1976 (fragmento). Ao apresentar uma cena em que um menino atira milho às galinhas e observa com atenção uma delas, o narrador explora um recurso que conduz a uma expressividade fundamentada na
- A)captura de elementos da vida rural, de feições peculiares.
- B)caracterização de um quintal de sítio, espaço de descobertas.
- C)confusão intencional da marcação do tempo, centrado na infância.
- D)apropriação de diferentes pontos de vista, incorporados afetivamente.GABARITO
- E)fragmentação do conflito gerador, distendido como apoio à emotividade.
Explicação
# Análise da Questão ## Alternativa Correta: D A narrativa incorpora **dois pontos de vista distintos de forma afetiva**: 1. **Perspectiva do dono**: "Que é que seria aquilo, meu Deus do céu?" - preocupação racional, buscando explicações lógicas (pedrada, mole... Ver explicação completa e trilha adaptativa →